quinta-feira, 6 de março de 2008

Ela não sabe guardar segredo

Ontem assisti à Oprah. Realmente me impressiono com as coisas revolucionárias que ela traz ao programa, que vão desde dramas de superação ao incrível recorde mundial do homem que botou 100 pessoas numa bolha de sabão (!). Viva o entretenimento feminino.
Mas ontem, miss money maker falava de um assunto que mais me instiga do que entretém: aquela tal da lei da atração. Sim, ela de novo. Mais famosa do que milho na beira da praia. Uma magia louca e ao mesmo tempo lógica que fez um bando de escritores ganhar dinheiro. Também pudera, olha a bosta que o mundo está. Num mundo individualista e que, quando bom, é meramente ilustrativo, quem sabe fazer milagre manda. Quem tem dinheiro também. E quem não tem nenhum dos dois, lê "O Segredo", de Rhonda Byrne.

Que de segredo, convenhamos, já não tem nada. E, apesar do tom sarcástico, eu acho tudo isso bastante positivo. Vamos nos acalmar, minha gente: há uma luz no túnel! Precisa de dinheiro? Basta colar um cheque na parede. Precisa de namorado? Basta se olhar no espelho e ficar se querendo.
No fundo, fico é muito feliz por vivenciar esta era do "querer é poder". Não que eu ache que um carro aparecerá na minha porta só por eu imaginar que tô à mil no volante. Mas é bastante óbvio que quando você pensa positivo a ponto de virar uma boba alegre, tudo fica bom. E, isso não acontece por causa da ‘lei divina do pensamento positivo', e sim porque quando você está de bom humor, até o que é ruim deixa de ser tão ruim assim. Cocô de passarinho no carro? Pois veja só como a natureza é bela!

Até aí, novidade nenhuma pra mim. Só que, se antes eu era chamada de "sonhadora discípula da Pollyana", hoje tenho o apoio de milhares de pessoas. A moda agora - finalmente - é ser otimista. Burra fui eu de não lançar um livro falando disso.
Tudo muito lindo até aqui, mas Oprah foi além. Trouxe lá uns cinco entrevistados que se deram bem da noite pro dia e botou na roda um truque espetacular para arranjar o marido dos seus sonhos: fazer uma lista.
Que nem lista de supermercados, sabe? Só que ao invés do miojo, banana katurra e danone de morango, você coloca aqueles itens indispensáveis, que variam, como diria Marisa, de mulher pra mulher: olho verde, cabelo ruivo, gosta de pescar, imita o John Lennon, curte uma luta livre, enfim, tudo o que você quer ver no bonitão. Aproveite, meu bem, que agora você pode. Use o lápis como varinha de condão e resolva sozinha seu problema de matrimônio. E depois disso, espere.

Segundo as comadres do sofá da Oprah, é batata. Ou melhor, é véu e grinalda. E o bendito virá justamente do jeito que você pediu. Depois dessa milagrosa receita (de bolo de casamento) muito me admira que a porcentagem de esposas ricas não tenha triplicado nesse meio tempo. Ricas e cônjuges de galãs, sensíveis, bem humorados...
Quem é mulher e já sofreu na mão de um condenado sabe que fazer a listinha, nem que seja mentalmente, é uma baita terapia. É reconfortante saber que pelo menos num papelzinho surrado aquela tua metade da laranja existe. Ridículo? Ora, mortal, não ouse duvidar da lei da atração!

Eu particularmente, apesar de já sofrer o diabo com representantes do gênero, nunca estive nem aí pra listinha ou o que fosse. Largar mão da perfeição é a melhor coisa que todo mundo pode fazer.
Aí o tempo passa e num belo domingo à tarde, você olha pro lado e vê. É ele, justo ele. E como é que ele veio, assim, tão perfeito, tão pra você, se nem a bendita listinha foi feita? Se nem segredo, Rhonda (belo nome) ou Oprah você ouviu? Ah, minha gente, aí é que mora o segredo. O verdadeiro, o enorme, o que nunca caberia num livro. E que fez, inacreditavelmente, tudo dar certo até aqui: largar a expectativa pra se virar com alguma coisa real.
Quem consegue fazer isso pode até não estar, de fato, rico, bem casado e bem sucedido. Mas tem a mesma sensação dos que estão.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

teste

teste

Se você disser para um passarinho que ele nasceu para voar, provavelmente ele não ficará supreso.Com a delicadeza e polidez que só os passarinhos possuem, responderá que há anos já sabia disso, e que este fato – o de saber a quê veio ao mundo – o fazia bem.
Se disseres para uma pedra que sua função é a de permanecer parada e impermeável pela eternidade, conformada com o fato de que talvez – e apenas talvez – alguma chuva ou pé humano a troque de lugar, a reação será parecida. Provavelmente ela será um pouco dura, mas te dirá que já sabia disso. E que ela, assim como inúmeras outras criaturas, têm sua visível e eloquente missão. Que se sentem bem com tamanha obviedade, porque é mais seguro e sensato viver em um mundo onde as coisas fazem sentido.
Mas por que eu, tão representante da espécie, tão humana para os humanos quanto um passarinho é para os passarinhos, ainda não me conformei com a minha função? Porque a minha função é me render. E a rendição é uma piada. Suja e mal contada.
Faça o favor, “se render” não entra sequer em lista de resoluções de ano novo. Não cabe em livros de auto-ajuda, não exerce o direito da lógica. Só cai bem em contratos ingênuos de sociedade, em que um sempre dá no pé e o outro sempre dá no prejuízo.
Mas se você vier numa tarde dessas dizer que fui feita para me render, eu não vou ficar surpresa. Assim como para pedras, passarinhos, flores e nuvens, ouvir minha função depois de tantos anos soará um pouco óbvio. Mas se render é coisa para vítima de assalto. É propósito de gente sem propósito. Coisa de gente que ama sem medida, e amar sem medida é tomar xarope de cereja aos litros: bom, mas não faz bem. Rendição é assunto para fracos, para sonhadores, para os deficientes do bom e velho orgulho. É coisa de gente que ficou com um coração tão vazio, mas tão vazio, que cabe uma pessoa inteirinha ali.
E apesar dos pesares, esta é a minha função. O que me conforta por me dar um propósito, mas me judia por nunca fazer sentido. É o trabalho que eu mais sei fazer no mundo, mas que, inacreditavelmente, nunca consegui ensinar pra ninguém.
Vai ver eram pedras. Ou, sei lá, passarinhos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

De limão















Falam por aí sobre uma tal crise na criatividade de publicitários. Os vários meios de disseminação e a quantidade de informação que consumimos todos os dias podem, sim, ocasionar coincidências criativas, já que todo mundo anda lendo e se informando de maneiras parecidas. Os conteúdos vão se acumulando e o desafio de criar algo inovador é cada vez maior, ainda mais quando temos a impressão de que (quase) tudo já foi dito.

Isso justificaria algumas coincidências, leves semelhanças e uso de caminhos criativos que já se tornaram até previsíveis. Mas há sim, aqueles que se abrigam nessa história pra plagear uma idéia ou outra, e aí o negócio fica muito mais sério.

Dizem também que até nesse mundo publicitário, o tal do “nada se cria, tudo se copia” anda valendo. Se pensarmos bem, qualquer tipo de informação (inclusive peças publicitárias) nos inspira a ter uma idéia. O importante é não transformar a inspiração em cópia. E, por mais óbvio que isso tudo pareça, nesse blog estarão reunidas peças que colocam até o óbvio em questão. Está aberto o debate.